O TECNOPOPULISMO E O ÓDIO NAS REDES SOCIAIS

O conceito de tecnopopulismo foi utilizado por Arthur Lipow e Patrick Seyd (1995) para definir uma nova etapa na democracia, desde o sistema de partidos, que derivaria em uma mudança nos mecanismo atuais de participação política e meios físicos da democracia formal, por outros de carácter diretos sustentados pela tecnologia, com a expansão da inclusão digital, substituído aos poucos as instituições e elementos de organização de massas, permitindo a consolidação da chamada democracia digital ou eletrônica, com um incremento da participação popular.

Sem embargo a confluência da tecnocracia com o neopopulismo em um ambiente carente de regras, dominados por algarismos e novas tecnologias tais como a Big Data e o SEO  proporcionou uma deturpação do processo que atualmente coloca em perigo a própria democracia e fomenta o ódio e a formação de bolhas de opinião sem o diálogo necessário para a manutenção do sistema democrático.

A tecnologia se transformou em palco para as vaidades, e a falta de uma legislação clara e de regras específicas para a comunicação digital, transformou a liberdade de expressão em libertinagem e ofensas. Onde fakenews conformam um novo cenário de pós-verdades e a opinião se sobressai perante os fatos originais.

Processos tais como a globalização, mudanças ideológicas e narcisismo experto, foram importantes detonantes para esse impulso do tecnopopulismo destrutivo, já que a exaltação do individualismo, o populismo ideológico e os paralelismos com eventos que ocorrem em outras nações afetam diariamente a vida e forma de pensar das pessoas.

Na América latina, além desses fatores é preciso somar conforme Martin Traine (2004), os processos de reforma econômica, aumento da segregação social, debilidade institucional histórica, inclusão digital de classes com menor senso crítico e formação, descontentamento e desconfiança com os poderes governamentais e o imaginário social de insatisfação (conhecido popularmente como “síndrome de vira-latas”) tão marcante na região.

Desse modo, internet e as redes sociais, devido ao seu próprio funcionamento, se transformou em uma armadilha para a democracia, promovendo uma hiperexposição e exaltação populista mantida sob uma verdadeira máquina de ódio, onde as fakenews ganham importância já que se aproveitam do próprio funcionamento dessas redes, onde o polémico ganha maior representação e consequentemente maior retorno, seja algo verdadeiro ou não!

A veracidade do fato se transformou em algo arbitrário e relegada a segundo plano, e a visualização é o principal valor, gerando bolhas cada vez mais fechadas e reforçando idiossincrasias e extremismos.

Cada vez que o cidadão busca ou consome um determinado tipo de informação, passa a ser bombardeado pelas ferramentas de busca e Bigdata, sendo continuamente exposto a estes temas, sem gerar espaços para a confrontação de ideias ou desenvolvimento do senso crítico. Sua realidade é moldada por um padrão que se retroalimenta e que se mantém mediante a informação que é mais consumida na rede, não sendo necessariamente factual, mas sim fruto da manipulação das informações no sentido de que a visibilidade passa a ser mais relevante que a veracidade.

O chamado algarismo do ódio, usando nas diferentes redes sociais, está gerando problemas cada vez maiores, sendo estes refletidos no aumento dos crimes digitais.

Em um estudo da Liga Antidifamação dos Estados Unidos (ADL em inglês) sobre o assédio e ódio na internet, crimes como difamação, injurias, homofobia ou racismo, são algo frequente nas redes sociais e a falta de ferramentas de controle e políticas de conteúdo, está permitindo uma polarização crescente da sociedade.

A Sociedade da Informação passou a ser a sociedade da desinformação, já que o mais importante é a visualização e o controle das informações e não a busca pela veracidade de mesma. Houve um processo de apropriação dos fluxos de informação, sendo este visível durante os ciclos eleitorais no mundo inteiro, principalmente no continente americano.

Iniciativas tais como a The Clean Network dos Estados Unidos, buscam mais um controle desses fluxos e das empresas que nele atuam que dos conteúdos que circulam por estes.

A falta de medidas mais rígidas em relação a produção de fakenews e uso de bots de comunicação, fazem da internet uma terra sem lei e um ponto de encontro de todas as perversidades humanas além de sua exposição contínua, pois bem sabemos que um tema polêmico, violento ou vexatório, possuí maior visualização que temas benevolentes e consequentemente maior exposição, da mesma forma que houve nos anos 90 um crescimento da mídia sensacionalista, este processo ocorre na internet de forma global e descontrolada.

Assim como denunciou o ator e ativista Sacha Baron Cohen, o mundo de hoje permitiria a divulgação da propaganda nazista e até mesmo a venda de escravos e demais crimes contra a humanidade. Ao final, grupos terroristas modernos tais como o ISIS, fizeram grande parte de sua captação de recursos mediante as redes sociais,  assim mesmo, a promoção de notícias falsas que atentam contra o bem estar da população e a convivência é algo frequente, sem mencionar o fato de que os processos democráticos são facilmente manipulados pelas fakenews.

O tecnopopulismo não popularizou a participação democrática… mas popularizou o ódio que cada dia está mais presente… Ou colocamos um freio e regras na internet ou seremos livres para atacar uns aos outros como no tempo das cavernas, porém agora elas se localizam na sala de casa…

Bellamy, C., & Taylor, J. A. (1998). Governing in the information age. Buckingham: Open University Press.

Traine, Martin (2004), “Neopopulismo. El estilo político de la pop-modernidad”. En: Revista Diálogo Político N°2, 2004. Fundación Konrad Adenauer, Buenos Aires

The Online Harassment. ADL https://www.adl.org/onlineharassment

A REDESS não é responsável pela opinião d@ autor/@. Defendemos a liberdade de ideias e expressão a fim de gerar análises críticas e expansão do conhecimento, sempre com respeito aos nossos valores e diretrizes e dentro da ótica legal.”

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