Witzel e a corrupção fascista

O Rio de Janeiro reflete a tristeza do brasileiro: tão lindo e tão sofrido.

São milhares de comunidades completamente dominadas pelas milícias, na qual o Estado não chega; há ainda o tráfico e outro crimes.

E uma das paisagens mais lindas do mundo, berço da Boça Nova, do Samba, do nosso futebol…

Brasileiro como é, o Rio traz consigo também as contradições brasileiras: é onde governou Brizola, único governador do Estado a não ser indiciado por corrupção e Wilson “atira na cabecinha pra matar” Witzel.

Witzel que seguindo a tradição carioca foi hoje afastado pelo STJ do cargo. Quem assume na linha de sucessão é Cláudio Castro, também alvo de investigação da Operação Tris in Idem da Polícia Federal. A pergunta na boca das pessoas é uma só: por que o carioca e o brasileiro continua votando nos corruptos de sempre?

A resposta é: ideologia.

Jason Stanley em sua simpática obra “Como funciona o fascismo” dedica um capítulo, o sétimo, a falar sobre Lei e Ordem. Slogan esse que os conservadores norte-americanos querem que se torne o da campanha de Trump em 2020.

A ideia geral é a de que ao bradar por Lei e Ordem cria-se um cercado ideológico que separa “nós” contra “eles”. O “nós” é, obviamente uma categoria filosófica, não um pronome.

Trata-se de um grupo difuso de pessoas que se reconhecem pelo ato de classificar como outro, como “eles”, pessoas com características similares. O ‘outro’ costuma quando “políticos descrevem categorias inteiras de pessoas como ‘criminosos’, impõe a elas traços permanentes de caráter que são assustadores para a maioria das pessoas, ao mesmo tempo em que se posicionam como nossos protetores.”1

Esses traços geralmente envolvem a cor de pele (preta), o local de nascimento e vivência (periferias e favelas), o modo de falar (gírias), o modo de se vestir (roupas gastas e baratas), o tipo de diversão que consomem (funk e rap).

E então, o autor cita uma passagem de um livro de James Baldwin, “Negroes are anti-semitical Because they are anti-white” no qual Baldwin, ao descrever sobre a descrição que a mídia faz dos protestos narrava os acontecimentos de modo que “quando os homens brancos se levantam contra a opressão, eles são heróis; quando os negros se levantam, eles voltam à sua selvageria nativa”.

Bom, tivemos um exemplo disso ainda essa semana: o jovem ligado a movimentos supremacistas brancos com um fuzil na mão para enfrentar movimentos antirracistas nos EUA foi tratado como herói da liberdade. Kyle Rittenhouse, o jovem em questão, foi preso pela morte de dois manifestantes antirracistas e defendido por Eduardo Bolsonaro, filho do presidente cuja mulher, Michelle Bolsonaro, recebeu R$ 89 mil em depósitos de Queiroz.

Na mesma semana Rodrigo Constantino chamou os manifestantes antirracistas do Black Lives Matter de “negros ingratos”, pois a comunidade preta norte americana teria um padrão de vida superior a de outros países.

Mas, o que tudo isso tem a ver com Witzel?

Ora, com o fato, apontado por Staley, bem como por pesquisas no campo da psicologia, de que o problema do pensamento fascista não é a corrupção em si, mas sim a corrupção da moralidade fascista. Em outras palavras, há um código de valores que o fascista possui, e que crê, através de sua ótica distorcida, ser o correto para a população. Mas por população entende-se tudo aquilo que não é o “outro”.

Se for preciso desviar alguns trocados, como por exemplo R$ 89 mil, o fascista típico enxerga nisso um mal necessário para que a pureza social seja restabelecida. Não é um problema maior do que pretos nas universidades ou pobres viajando de avião com chinelos havaianas ou roupa da Renner.

Mas obviamente a maioria da população carioca não é fascista. Mas o ponto é que esse traço de comportamento que se encontra no fascista de modo mais evidente, nos acomete a todos. Trata-se da ideia de que “eles” cometem crimes. “Nós” cometemos erros. O livro de Stanley ainda comenta sobre pesquisas nas quais as pessoas defendem penas mais duras a criminosos quando eles são descritos com um perfil diferente do entrevistado. Se o entrevistado é branco, hétero e de classe média e o criminoso é descrito como preto, bissexual e de classe baixa, por exemplo, quase 20% das pessoas defendem penas mais duras.

O carioca e o brasileiro tem votado nas pessoas que tem votado, com uma boa parte dos políticos atolados em escândalo de corrupção até o pescoço porque, pesar dos pesares, se sente identificado com o político. Seja pela classe social, pelo tom de pele, pela religião, pelo discurso. Mas se sente.

Então a corrupção praticada por aquele corrupto não é vista como um mal maior. Mas seria, se o candidato acusado fosse preto, homossexual, umbandista ou… de esquerda.

Por que é inegável que o eleitorado de Witzel é de direita, certo?

Para concluir e não ser mal interpretado, NÃO estou afirmando que a maioria dos eleitores cariocas são fascistas e NÃO estou afirmando que a toda a direita o é. Estou dizendo que um mecanismo psicológico presente no pensamento fascista é mais disseminado do que poderíamos supor a princípio, e que isso nos faz entender melhor por que Witzel foi eleito falando o que falava, fazendo o que fazia. Porque seus eleitores o consideram como parte do mesmo grupo.

E errado é sempre o outro, não é mesmo?

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1. Como funciona o fascismo, p. 117.


A REDESS não é responsável pela opinião d@ autor/@. Defendemos a liberdade de ideias e expressão a fim de gerar análises críticas e expansão do conhecimento, sempre com respeito aos nossos valores e diretrizes e dentro da ótica legal.”

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