Porque o Capitalismo NÃO irá salvar o Pantanal

A cada um real investido em economia verde/limpa/renovável, 3 reais são devolvidos para a sociedade, o que é fabuloso, certo?

Qualquer que seja o setor, um investimento que gere um retorno três vezes maior é excelente, nisso concordamos, creio. Entretanto, terei de ser eu aquele a trazer más notícias: não será assim que resolveremos os problemas das queimadas no Pantanal ou no Amazonas.

Vamos entender o porquê.

Para isso voltemos ao passado. Desde 1611 o Brasil registra em sua história movimentos abolicionistas, nesse caso, organizados por lideranças indígenas da época. De 1611 até 1888, muita água correu por debaixo da ponte, o que quer dizer muita gente torturada, presa, estuprada, assassinada, queimada, estripada, horrorizada, adoecida, chicoteada, violentada. Estamos aqui falando, literalmente, de milhões de pessoas.

Nos EUA, foi semelhante. Os movimentos abolicionistas organizados passaram por maus bocados até conseguir que a 13º Emenda fosse assinada. Com um agravante que foi a Guerra Civil nos EUA, em que os Estados do Sul LITERALMENTE lutaram, mataram e morreram pelo “direito” (com todas as aspas possíveis) de continuar mantendo os negros escravizados.

Abraham Lincoln é quem assina a tal Emenda a Constituição abolindo formalmente a escravidão, embora abrindo uma brecha permitindo que a população carcerária norte-americana pudesse ser escravizada. A consequência, como hoje se sabe, e mesmo na época era fácil de prever, é que o número de pessoas presas e pretas foi aumentando exponencialmente, até chegar onde estamos: em 2020 há mais pessoas pretas presas do que pessoas pretas escravizadas. E aqui gostaria de citar uma passagem de Lincoln debatendo com o Senador Stephen Douglas:

Digo, portanto, que não sou, nem jamais fui, a favor de criar, de qualquer maneira que seja, a igualdade social e política das raças branca e preta; que não sou, nem nunca fui, a favor de transformar negros em eleitores ou jurados, nem de habilitá-los a exercer cargos públicos, nem de permitir seu casamento com pessoas brancas; e direi, adicionalmente, que há uma diferença física entre as raças branca e preta que, creio eu, irá para sempre proibir as duas de viverem juntas em termos de igualdade social e política.  E, visto que elas não podem conviver desta forma, enquanto elas permanecerem em coexistência terá de haver a posição do superior e do inferior, e eu, assim como qualquer outro homem, sou a favor de que a posição superior seja atribuída à raça branca.  [….] O que eu mais gostaria de ver seria a separação das raças branca e negra. (Abraham Lincoln, First Lincoln-Douglas Debate, Ottawa, Illinois, Sept. 18, 1858, in The Collected Works of Abraham Lincoln vol.3, pp. 145-146; 521).

Sim, Lincoln, o presidente norte-americano que acabou com a escravidão era profundamente contra a igualdade racial. Mas, por que então ele assinou a Emenda que aboliu a escravidão? Deixemo-nos Lincoln falar novamente:

Vejo a questão [a Proclamação de Emancipação] como uma medida prática para a guerra [de secessão], algo a ser decidido de acordo com as vantagens ou desvantagens que ela possa oferecer à supressão da rebelião. […]  Também irei admitir que a emancipação irá melhorar nossa situação perante a Europa, convencendo aquele continente de que estamos sendo impelidos por algo mais do que a ambição.

Tanto aqui quanto lá, a escravidão foi abolida, mas pelos motivos ERRADOS, e por isso em 2020 os casos de racismo afetam pretos e pretas ricos e pobres. Claro, se você for o Neymar você sofre racismo em campo. Se for George Floyd, te asfixiam até a morte. Mas, em ambos os casos, a questão racial aparece como elemento central do problema.

A escravidão negra nas Américas existiu por ser a expressão de um sistema econômico rentável a elite de ambos os países, fora os países europeus. A escravidão negra nas Américas deixou de existir não porque magicamente essas elites se tornaram esclarecidas e concluíram que escravizar seres humanos é algo desumano, maligno, terrível, mas sim porque descobriu-se outras formas de monetizar e lucrar. A mão de obra escrava deixou de ser economicamente viável, rentável, e somente então deixou de existir. Mas, o sentimento racista não desapareceu. Não duvide: se alguém, algum dia demonstrar formas de se lucrar horrores com a mão de obra escrava, ela voltará a existir, mais dia menos dia.

A menos que o racismo desapareça da face da Terra.

O mesmo vale para a Amazônia, Pantanal e toda a questão ambiental: se ela for tratada pela via econômica, da rentabilidade, ela será colocada para ser resolvida pelos responsáveis apenas quando uma nova forma mais rentável aparecer. E se aparecer também: as coisas podem muito bem chegar a um ponto irreversível.

E se for resolvida, caso algum dia no futuro distante, voltar lucrativo, centenas de milhões de hectares serão queimados, animais serão carbonizados, a terra ficará estéril novamente.

Meu ponto é: o Liberalismo NÃO irá resolver esse problema, pois afinal, foi a mentalidade liberal quem criou o problema e o perpetua. Matam, queimam, destroem e depois pagam meia dúzia de blogueiro e “cientistas” para dizer em público que o aquecimento global não existe.

Será preciso um novo tipo de critério para resolvermos essa questão. Uma que não se paute exclusivamente pelo lucro. A questão é se essa resposta existe e, caso exista, se teremos tempo para descobri-la e aplicá-la.

“A REDESS não é responsável pela opinião d@ autor/@. Defendemos a liberdade de ideias e expressão a fim de gerar análises críticas e expansão do conhecimento, sempre com respeito aos nossos valores e diretrizes e dentro da ótica legal.”

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