A necessidade da família na Tradição Confuciana

Vinícius Borgheri dos Santos 06/01/2021

O conceito de piedade filial, assim como o seu desenvolvimento dentro da
realidade das estruturas de relação parental da China e do mundo vem
mudando drasticamente, como, por exemplo, as transformações ocorridas no
modo de pensar e estruturar as famílias. Assim como as formas de relação das
pessoas e das construções familiares.

O ponto da reflexão que existe na ordem do estado e de sua formação, junto a praticidade vivida para a transformação e adaptação da situação da humanidade em cada etapa de seu desenvolvimento econômico, cultura e principalmente material.

Nesse trabalho explorarei a experiência da piedade filial na contemporaneidade, assim como a transformação que essa categoria expressa dentro da mutação que a própria estrutura de família vem sofrendo no decorrer dos anos, não só pelo crescente aumento populacional em alguns países e a diminuição populacional em outros, mas também o surgimento da politização dos conceitos de aborto e impacto que isso tem entre o choque civilizacional das visões que um extremo ocidente, ainda em fase muito tardia de desenvolvimento político, econômico e
social, com o contraste do alto desenvolvimento de países asiáticos,
principalmente a China. Tomarei o Japão também como o exemplo oposto da
transformação negativa desse conceito, aonde o desenvolvimento econômico e
político não refletiu positivamente no desenvolvimento de uma sociedade sadia
e de real transformação na parte humana, levando os indivíduos a uma atitude
extremamente autocentrada sem espaços para o reconhecimento da
necessidade da construção familiar e da continuidade dos legados e fomento a
novas construções que visam a dissolução do passado, sem necessariamente
haver a dissolução do próprio conceito de coletivo, a medida é claro que o
trabalho e a particularidade se tornaram ainda mais evidentes dentro dessa
sociedade.


A piedade filial e seu conceito principal em Confúcio 孝 está intimamente
conectada a ideia da conservação de um espaço que seja dedicado a prática das atividades que relacionam os indivíduos de uma família, primeiramente a
relação com os pais, ou seja, os indivíduos necessariamente conectados às
atividades que permitirem a criação e a existência do ambiente familiar, aqueles
que necessariamente são os provedores e transformadores do ambiente
material para a criação do espaço físico que permite o exercício e a existência
de um núcleo familiar. Portanto, o respeito e a dedicação no cuidado e no zelo
com a estrutura que, em sua finalidade última, permite a criação e a
continuidade da existência se torna, não só necessária, mas fundamental para
a manutenção do microcosmos que origina os outros processos que vão se
colocar na posição de interação com o universo da família. Ou seja, Confúcio
identifica no conceito da família, um ponto material, necessário para a
continuidade da existência, portanto, a preservação desse conceito e sua
expansão para não só existir a colaboração, mas a interconexão produtiva
entre outros setores se baseia na prática da piedade filial, logo a relação e
interconexão que pode existir entre famílias e suas necessidades, visando
sempre a preservação e expansão do processo da piedade filial a outras
categorias.

No livro “O desenvolvimento do Neo-Confucionismo”, assim como a principal
crítica feita pelos filósofos da dinastia Song, está exatamente no movimento
crítico que existiu entre as instituições para a materialização e a crítica a parte
metafísica que havia sido incorporada pelas práticas confucianas advindas de
doutrinas taoístas e da chegada e incorporação do Budismo dentro da China.
Desse modo, a tentativa estava claramente na necessidade de transplantar as
práticas confucianas de maneira mais palpável e a transposição para uma
adaptação ressignificada da doutrina de Confúcio para o Estado e também para
a família, que como veremos mais a frente, também faz parte da formatação e
do desenvolvimento da lógica da família, não só por se tratar de uma expansão
das qualidades familiares, mas também da materialização da transformação do
todo em uma grande família, reino ou país. Portanto, a crítica neo-confuciana
dentro da tradição filosófica chinesa, está muito mais centrada na tentativa da
autodeterminação do que seriam as utilidades da prática confuciana, o que
seria trazido de outras partes, assim como aquilo que pode representar a
transformação material das relações nos grandes centros familiares (reinos e
países), como nos pequenos centros familiares (Bairros, clãs e pequenas
famílias).

Na análise de Zhang Junmai fica evidente a relação existente entre essas
concepções dentro da perspectiva do neo-confucionismo quando este diz a
respeito do debate entre a perspectiva de Confúcio e as demais escolas que se
transplantaram para dentro da China, principalmente o Budismo. “Those who
intende to govern their country well first kept their Family in order. Those who
intended to keep their Family in order first cultivate their person. In order to
cultivate their person they first rectified their mind. In order to rectify their mind
they first realizing a true will. It was their purpouse, after rectifying their mind
and realizing a true will, to accomplish something constructive for the good of
the peopple
”. (Hanyu. Inquires to Dao, pag. 95-96).

Essa perspectiva a respeito da necessidade de conceber a família, assim como
a dedução que vem dentre os processos que a família exerce como fonte de
ligação entre a vontade do indivíduo e a materialização de suas vontades se
faz não só necessária, mas também deixa evidente a problemática da
manutenção desta situação em cadeia, pois a partir do momento que uma
dessas partes começa a se tornar comprometida, perdemos a conexão com
todo o resto enfraquecendo todas os outros componentes da matéria. Voltarei a
utilizar o exemplo do Japão e a fragilidade que a atitude singular, autocentrada
e de isolamento da população japonesa vem trazendo para a própria
constituição da realidade, política e social do país.

No ano de 2018 foram registrados o nascimento de menos de 900.000 mil bebês, o que significa não só uma queda muito grande na taxa de nascimentos, mas um problema muito grave para todas as formas da cadeia produtiva no Japão. Os problemas estão
principalmente concentrados na formação de uma mão de obra que consiga
substituir a mão de obra já envelhecida nos setores centrais da administração
privada do Japão, portanto, uma questão muito bem levantada pelo neo
confucionismo, pois a medida que existe o declínio da instituição da família e a
sua concentração, todo o resto passa a ser comprometido. Hoje, a maioria dos
jovens no Japão passa muitas horas no trabalho e tem muito pouco tempo para
conseguir interagir dentro da sociedade, assim como a pressão dentro do
setor econômico japonês, faz deste um grande empecilho, pois a população vem passando cada vez mais tempo dentro do trabalho e demorando muito
mais tempo para conseguir alcançar uma estabilidade financeira. O que
compromete não só a construção da família, mas a elaboração de um plano
futuro que possa catalisar uma capacidade criadora que tenha como objetivo
garantir a continuidade e existência do país. Esse problema está intimamente
ligado também a complexidade das formas de cadeia produtivas no Japão,
larga concentração de renda que o setor privado vem acumulando e a vida
levada de forma a exaltar o individualismo no Japão. Segundo a ONU, a
população japonesa poderá ter um encolhimento de mais de 17% em doze
anos, a partir da data em que o estudo foi organizado.

A necessidade então da estruturação de uma cadeia de ações e definições que
assegurem a necessidade da existência passa então a ser condição primorosa
de existência como fica claro na passagem que segue do texto de Hanyu:
But now the followers of Lao-zi and the Buddha who talk about rectification of
the mind ignore this world and their native land and reduce the normal duties
ordered by heaven to nothingness. Following the ideas of Lao-Zi, a son does
not have to consider his father as a father, not does a man have to regard the
king as a king. He does not have even to discharge his duties as a subject
”.
(pag.96)

Portanto, o conhecimento e a ótica de Lao-zi e dos budistas é traduzida como
uma complicação negativa à medida que trabalha de forma a negar a
materialidade, forçando a transformação de maneira negativa, negando as
construções e travando contra essas batalhas da própria existência. À medida
que se colocam de uma perspectiva negativa diante da construção elaborada
dentro da materialidade que visa unicamente a continuidade e transformação
da existência em algo que possa ser ainda maior, estas atitudes filosóficas não
colaboram para a manutenção do eu, da família, do reino e do país. Portanto,
as características metafísicas da realidade, segundo a tradição neo-confuciana,
deveriam ser não só separadas, mas combatidas para assegurar a progressão
dos componentes que configuram a realidade. Quando a dialética oferecida por
essas filosofias é colocada de maneira inversa, ou seja, de maneira negativa
causa o processo de desconstrução e eliminação das categorias pré-definidas que caracterizam não só o real, mas toda a forma de estrutura que se
predispõe a dizer o que é real, isso é combatido dentro do neo-confucionismo.
O trabalho dentro da sociedade contemporânea tem fragmentado ainda mais
as relações dos indivíduos, de duas maneiras mais evidentes. A primeira dela é
a separação dos indivíduos de seu lazer e de suas atividades de convívio
social, aonde podem não só colaborar para o progresso de sua própria
existência como a formação de novos conjuntos de relações e fenômenos que
constroem a realidade e sua formação intrínseca, ou seja, como pode haver
família se os indivíduos estão se relacionando cada vez menos com outros
indivíduos, como é o caso do Japão. A população passa tanto tempo em
suas atividades individuais, como os estudos aplicados, o trabalho e os meios
para a sua realização, que não tem interesse, vontade, tempo, ou o que for
para entrar em contato com outros indivíduos. A materialidade do conceito de
piedade filial não pode continuar existindo se as pessoas não constituem mais
famílias, se não possuem mais filhos, se estão tão envolvidas e presas nas
suas atividades particulares.

A politização do aborto, assim como a sua prática estão também relacionadas
com a negatividade imposta pela vida em sociedade. A imposição material
diante dos indivíduos os transforma em seres que tendem a transitar pela
negatividade da constituição material de maneira mais intensa. No extremo
ocidente, ou melhor dizendo, na periferia do ocidente, nos países mais pobres,
existem condições muito precárias para a pratica do aborto, assim como um
amplo embasamento legal para a proibição do aborto. Essas leis se baseiam
em sua maioria em uma moral socialmente construída por meio da influência do
pensamento Judaico-cristão. Esses preceitos impedem o atentado a vida,
como uma de suas principais doutrinas, e a lei que enquadra o feto dentro da
mulher grávida como uma vida, proibindo legalmente o aborto. Entretanto,
existem brechas legais que permitem a prática da interrupção da gravidez em
caso de risco de vida da mãe, ou quando a mulher engravida devido a um
estupro. Recentemente na América Latina, os movimentos em defesa da
escolha da mulher em abortar estão ganhando cada vez mais força e
visibilidade. O principal argumento não é somente o direito ou não ao aborto,
mas sim o direito de escolha da mulher e o direito à um tratamento médico digno, pois milhares de mulheres morrem todos os anos por realizarem abortos
clandestinos sem o auxílio necessário e respaldo médico. Isso está ligado
principalmente ao avanço da luta das mulheres em uma frente ampla que
coloca em xeque a instituição patriarcal da família, expondo também a
debilidade do sistema de saúde e político que sustenta toda essa estrutura.
Essa perspectiva não é só conflitante, mas também dialoga perfeitamente com
a questão da piedade filia, pois ao optarem por não terem filhos, as mulheres
nos apontam necessariamente para as causas materiais que as levam a tomar
essa decisão, como, por exemplo, a falta de infraestrutura econômica dos países
periféricos, que por estarem materialmente debilitados colocam a questão da
constituição de uma família nuclear, com pai, mãe e filhos, em cheque, uma
sociedade que não oferece respaldo estrutural para o nascimento de novos
indivíduos colabora definitivamente para a destruição da instituição da familiar,
ou seja, da própria condição material de existência da sociedade. Um estudo
realizado pelo jornal italiano La República mostra que cerca de 50 mil mulheres
morrem todos os anos vítimas de abortos clandestinos, e as principais vítimas
vem de países mais pobres, aonde a mortalidade acontece principalmente
entre garotas de 15 a 19 anos¹. Esse dado é tão assustador quanto o fato de
existirem tantos abortos. Portanto, a condição da discussão Neo-confuciana
necessariamente precisa passar por questões que permitam o livre
crescimento e desenvolvimento da estrutura familiar, sem que essa seja
colocada em risco pela falta de infraestrutura de países atrasados, excesso de
trabalho ou fundamentação religiosa.

Como conclusão farei alusão a situação mais recente da política chinesa que a
suspensão da política do filho único e a reflexão que isso causa dentro do
sentido da própria concepção de piedade filial. Como sabemos muito bem,
existe um histórico que transita entre o controle da taxa de natalidade da
população chinesa desde a chegada de Deng Xiaoping ao poder e início da
modernização das práticas e políticas internas e externas da China, entretanto,
no período de seu antecessor, dentro das políticas de Mao Zedong, houve o
incentivo para a criação de grandes núcleos familiares, afim de suprimir as
necessidades imediatas de industrialização e modernização do campo, uma
tarefa que só seria possível com a utilização de instrumentos materiais e o mais importante desses instrumentos era, e continua a ser, a força de trabalho.
Portanto, desde este período existe a clara concepção da necessidade
fundamental da família e da estruturação que esta oferece para o
desenvolvimento de toda a cadeia produtiva que viabiliza as transformações
que ocorreram na história chinesa, como, por exemplo, os conflitos armados
com o Japão e a Coreia, ou o projeto de industrialização chamado “O grande
passo para frente”. A revogação da política do filho único aparece como
resposta para o distanciamento e acomodamento da sociedade chinesa em um
molde que por muitos anos limitou o crescimento da população chinesa e,
infelizmente, desmaterializou o conceito de piedade filial, pois este conceito se
trata, primeiramente, da construção da família e a partir desse meio a
estruturação de todas as outras fundamentações materiais, como, por exemplo,
o Estado, ou até mesmo a prática da benevolência confuciana. Pois com a
concentração de esforços voltada somente para o desenvolvimento de
qualidades não materiais, impulsiona o descolamento da realidade e a
profanação de preceitos duramente estabelecidos dentro da sociedade
chinesa, como as condições de propriedade e a luta de classes. Com a
possibilidade de se haver um segundo filho em todas as famílias, retira-se a
adaptação egocêntrica do indivíduo, à medida que as famílias podem
concentrar os seus esforços em mais de uma figura, trazendo uma
movimentação necessária para uma sociedade que se encontra cada vez mais
invadida por preceitos ocidentais que não só lutam contra a instituição da
família, mas também por um centralismo que está para fora da realização do
real, ou seja, buscam mistificar a questão da família, assim como relativizar as
construções materiais para a criação de uma estabilidade que possa dessa
maneira corromper as construções do presente.

Não me coloco aqui contra o avanço necessário que a humanidade precisa
realizar, mas acima de tudo me ponho em defesa da materialidade, da família,
seja ela como for, pois como Hanyu muito bem apontou, ela se encontra no
meio, ou seja, entre o completo vazio e a necessidade imediata da criação, da
ação e da superação de contradições que estão dispostas a todo momento
dentro da realidade. A piedade filial é uma das instituições culturais e legados
históricos mais importantes que a China e Confúcio legaram a humanidade, justamente por evidenciarem a vida e proporcionarem o crescimento e construções possíveis para a humanidade.

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金小方, 现代新儒家对中国哲学话语体系的传承与刨新
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Nel mondo oltre 43mila donne muoiono per aborto non sicuro – La Repubblica

https://toyokeizai.net/articles/-/309129?display=b

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