Cracolândia um problema de saúde pública e gestão urbana

Localizada em uma área que já esteve entre as mais nobres da capital (Campos Elíseos) e a poucos quilômetros da prefeitura e demais órgãos públicos, a cracolândia é um dos grandes desafios da capital paulistana, que gestão após gestão continua sem ser resolvido, gerando tensões e diversas interpretações do fenômeno assim como diferentes abordagens políticas e sociais.

O crack chegou ao Brasil na década de 80 e rapidamente se popularizou entre as camadas mais humildes devido a seu baixo valor de mercado e alto potencial psicoativo e toxicômano, sem embargo, ainda que esteja presentes em praticamente todas as capitais do Brasil, foi em São Paulo e no Rio de Janeiro onde encontrou seu maior número de dependentes, não conhecendo limites nem estratificações sociais, se transformando em uma questão pública geograficamente localizada.

É assustador ver as imagens da região central de São Paulo e a livre circulação e atividade daqueles que lucram com o comércio desta e outras drogas, gerando sentimentos de revolta, frustração e indignação por parte da sociedade.

Por esse motivo é importante trazer ao público uma explicação mais ampla do processo de formação da cracolândia e como a marginalização das mais de 2000 mil pessoas que frequentam esses pontos de consumo não se traduz em uma solução, mas bem atua como um agravante da situação.

A cracolândia quanto questão urbana, responde a diferentes processos que ocorreram na cidade. Sendo a gentrificação do centro de São Paulo um dos fatores que levaram a ocupação daquele território. As falhas nas políticas e projetos de ocupação territorial, geraram verdadeiros bolsões de pobreza e miséria em distintos pontos da capital. Campos Elíseos, Baixo Glicério, Baixa Mooca, entre outros bairros, são resultantes do processo de desindustrialização, especulação imobiliária e descentralização das atividades de São Paulo em direção a novas centralidades, tais como a Paulista e posteriormente a Zona Sul da capital, havendo uma ingente mudança nas dinâmicas, econômicas, sociais e políticas, da região central. A incapacidade do governo em gerar projetos urbanísticos e responder as novas demandas da população, provocou um iminente abandono do centro, que se transformou somente em um ponto de passo da população em direção aos diferentes pontos cardinais da cidade.

Um coração que pouco a pouco deixou de bater, seria talvez a melhor metáfora para explicar o que aconteceu com a região da subprefeitura da Sé.

Em relação à questão social, o poder público manteve uma política de marginalização e criminalização de uma questão de saúde pública, delegando ao esquecimento não somente aos dependentes químicos, mas também aos moradores de rua da capital. Ao não haver uma visão sanitária do problema, que lute contra o vício e aos resultados neurológicos causados pela dependência química, se permitiu uma construção discursiva de ataque e intervenção a essa parcela da população, que aos poucos foram se transformando em cidadãos de segunda categoria até o momento em que perderam de fato sua identidade e sua pertinência a sociedade.

O poder público atuou como juiz moral da condição dessa parcela da população e classificou a mesma como uma problemática a ser resolvida para gerar benefícios ao resto da população, transformando os mesmos em indigentes sociais.

A criminalização das drogas, nesse sentido atua como alicerce para o discurso político, pois o dependente químico não é visto como um enfermo, mas como um criminoso ou marginal, motivo pelo qual a intervenção socio-sanitária encontra diversas barreiras e acaba por negligenciar parte de suas atividades pela dificuldade de gerar um plano de ação que de fato funcione sob as limitações do poder coercitivo do Estado.

Embora a discussão sobre a legalização das drogas seja uma questão muito ampla e de difícil consenso social, a mesma não é o elemento central deste artigo, mas sim a marginalização do dependente e as dificuldades que esse impasse social gera nessa parcela da população, que independente da abordagem que seja realizada pelas autoridades locais, continuam perpetuando a problemática e transportando de um lado a outro da cidade esse contingente sem de fato encontrar resultados pragmáticos das ações públicas ou tendo apenas resultados paliativos e de curta duração.

Com a pandemia gerada pela Covid19, essa questão ficou muito mais latente, e a sociedade se dividiu ao ver a imagem da prefeitura colando pedras na parte inferior dos viadutos com o objetivo de desestimular sua ocupação pelos moradores de rua; e por outro lado o padre Júlio Lancellotti, que atua há décadas com a população de rua e especialmente com os dependentes químicos da região da cracolândia, quebrar com uma marreta ditas pedras.

É importante ressaltar que nem todo morador de rua faz uso do crack e de outras drogas, porém compõem uma população de risco extremo e ambos são socialmente discriminados e marginalizados.

Diante das políticas implementadas pela prefeitura, ambos grupos são socialmente negligenciados, e os programas locais não são suficientes para resolver a problemática. Situação que já mostrava uma degradação contínua com a desativação de diversos pontos de apoio e até mesmo do fechamento de comedores sociais por parte do governo do Estado. Pois o morador de rua, seja ele dependente químico ou não, é tido como um problema urbano e não como uma questão social e sanitária, motivo pelo qual em plena pandemia, existe uma intervenção no mínimo contraproducente e que historicamente o único resultado que teve foi dispersar por toda a cidade esse contingente.

Caso fosse tratado como uma questão sanitária, haveria um maior controle para que essa parcela da população não se transformasse em um foco potencial de dispersão do próprio vírus. Revelando um desafortunado paralelismo e questão a qual convido todos a refletir…. Qual é o pior vírus, a Covid19 ou a marginalização e a pobreza derivada da incapacidade da gestão pública de resolver de fato um problema de proporções sociais, econômicas e humana?

Wesley Sá Teles Guerra,

Doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Contemporânea pela UNED (Espanha), Mestrando em Desenho e Planificação de Cidades Inteligentes pela Universitat Carlemany (Andorra), Mestre em Políticas Sociais e Intervenção comunitária pela Universidad de Coruña (Espanha), pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela FESPSP e bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília.

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