De volta para o gabinete: a gestão mais difícil de Eduardo Paes

por Bernardo Monteiro, graduado e pós graduado em Relações Internacionais, especialista em política, atua como analista político, palestrante e professor de temas voltados ao conhecimento e divulgação política. Colunista semanal aqui da REDESS.


Eleito no segundo turno das eleições municipais do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (DEM), começou em 01 de Janeiro sua terceira gestão. Após dois mandatos seguidos como prefeito – de 2009 a 2016 – onde entre inúmeros acertos e erros, fato normal a qualquer cargo de liderança, teve uma segunda gestão muito marcada por grandes obras e intervenções públicas devido aos grandes eventos tais como, Copa do Mundo de 2014, Jogos Mundiais Militares 2015, Olimpíadas e Paraolimpíadas em 2016. Com investimentos de cifras nunca dantes vistas pelos cofres públicos cariocas (ao menos desde que a cidade deixou de ser capital federal) a gestão deve ter sido desafiadora, no entanto, acredito eu, bem mais fácil do que a situação atual.

É bem verdade que passado isso, os intermináveis escândalos de corrupção dos ex-governadores Sérgio Cabral e seu sucessor Luiz Fernando Pezão – ambos presos – pareciam e a todo momento rondavam de alguma forma o nome de Eduardo Paes, verdade seja dita, se existiu ou não, até o momento da elaboração desta coluna nada foi comprovado ou acusação feita ao atual prefeito.

Antes de analisar os desafios dessa gestão e principalmente os nomes escolhidos para algumas das mais importantes pastas da prefeitura, acredito que alguém que passou 8 anos como chefe do executivo municipal merece uma observação histórica. É verdade que Eduardo Paes está longe de ser o melhor gestor do mundo, mas acredito que a distância para ser o pior seja bem maior; talvez você ame ou odeie o prefeito ou o trabalho feito por ele nesses 8 anos de suas primeiras gestões; porém precisamos fazer uma reflexão histórica.

Desde 1985 (período da redemocratização e volta de eleições diretas) tivemos 7 prefeitos, em ordem cronológica: Saturnino Braga, Marcelo Alencar, Cesar Maia, Luiz Paulo Conde, Eduardo Paes e Marcelo Crivella, sendo que somente Cesar Maia – foi prefeito por um mandato até 1997 onde ainda não era permitida a reeleição, fez seu sucessor Conde, e retornou par mais 2 mandatos, sendo reeleito – e Eduardo Paes tiveram mais de 1 mandato – fazendo 2 mandatos e retornando agora.

Somente por essa razão já seria minimamente acertado dizer que tanto Cesar Maia quanto Eduardo Paes, tem seus méritos na gestão da cidade, há quem diga que Maia tenha sido o melhor prefeito desde 1985, mas é bem verdade que no mesmo período nenhum outro gestor atuou tanto em intervenções fundamentais em um período fundamental na recente história do Rio de Janeiro quanto Paes. Me arrisco a dizer, e até a errar feio ao dizer isso, que se Eduardo Paes não tiver nada a dever na justiça e fizer um primeiro mandato no mínimo bom, se reelege com alguma tranquilidade daqui 4 anos.

Vamos aos desafios, afinal, são 4 anos pela frente, com uma pandemia em curso e sem data para findar, o que já será o primeiro dos grandes trabalhos herculanos pela frente. O prefeito assume um munícipio quebrado financeiramente, talvez uma das piores situações já repassadas de uma gestão para outra (agravada pelos impactos sem precedentes da pandemia na economia carioca); o pagamento recorrente dos servidores será o segundo desafio a ser enfrentado por 3 razões óbvias: nunca o Estado precisou tanto de seus servidores quanto agora, nunca se teve tão pouco dinheiro em uma gestão que ainda deixou bagunçada as contas do munícipio e praticamente todas as receitas estão paradas, congeladas ou complexas demais para serem destravadas em tempos como agora; elencaria um terceiro trabalho fundamental para esse mandato, é preciso mostrar serviço, e mais, é preciso fazer o carioca acreditar que inúmeras obras como BTR, VLT, desapropriações para intervenções públicas, gestão inteligente da cidade, enchentes e etc… não foram em vão, pois essa foi a impressão deixada.

Como nenhuma liderança trabalha sozinha, e na política o trabalho existem pilhas e mais pilhas que se multiplicam diariamente, o time escolhido pelo prefeito Eduardo Paes tem nomes bastante esperançosos.

  • Renan Ferreirinha, deputado estadual pelo PSB, assume a Secretária de Educação, com um apoio gigantesco pela comunidade de professores, analistas, educadores e acadêmicos do mais alto gabarito. Ferreirinha é sem dúvida a maior e melhor surpresa da gestão de Paes. Sem falar que para uma das mais importantes pastas de qualquer cidade;
  • Chicão Bulhões, deputado estadual pelo NOVO, aceita o convite para ser o Secretário Desenvolvimento Econômico, Inovação e Desburocratização, pauta de especialidade do deputado e essencial na retomada e reorganização da cidade. (Ato contínuo, e de acordo com o estatuto do partido NOVO, o mesmo teve de pedir para sair e renunciar ao cargo de deputado);
  • Vinícius Cordeiro, (AVANTE), será o Secretário de Proteção aos Animais, nome bastante elogiado por entidades e pessoas ligadas a causa e pela Associação de Defesa Animal;
  • Kátia Souza, assume a Secretaria de Infraestrutura, servidora municipal desde 2008, Kátia é engenheira e foi indicada pelo programa Líderes Cariocas, que seleciona e indica perfis de servidores municipais para cargos de chefia e liderança;
  • Marcelo Calero, deputado federal pelo Cidadania, assume a nova Secretaria de Integridade Pública, diplomata e com muito respaldo pelo seu trabalho como Secretário de Cultura nos últimos anos de Paes, que o alçou a Ministro da Cultura do Governo Temer. Os pontos fortes de Calero são muito compatíveis com a nova secretaria. Ele deixou o cargo de Ministro fazendo denúncias de pressão para atuar de forma antiética visando facilitar Geddel Vieira Lima também Ministro de Temer e pela sua gestão técnica e muito elogiada a frente da organização da Jornada Mundial da Juventude, em 2013, como coordenador – adjunto de Relações Internacionais da Prefeitura.
  • Washington Farjado é outro nome que me parece ser uma escolha acertada, arquiteto e urbanista será o Secretário de Planejamento Urbano. Sem um histórico político, Farjado se destaca pelo olhar técnico de quem chefiou o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade;
  • Daniela Maia será a primeira mulher a comandar a RioTur, o que se mostra uma excelente escolha pela larga experiência que possui e por elencar um ponto de suspeitas e denúncias da gestão Crivella, mostrando que Daniela Maia pode organizar e dar ordem a RioTur;

Mas nada é certo como o nascer do sol na política, principalmente na carioca. Outros nomes são no mínimo questionáveis: Pedro Paulo (Fazenda e Planejamento) e Daniel Soranz (Saúde) tem motivos de sobra para ao menos um olhar mais atento em suas gestões, acusado de agressão violenta contra a mulher, mesmo que inocentado, Pedro Paulo já é uma indicação pessoal de Eduardo Paes e foi até seu nomeado para tentar sucedê-lo em 2016, sem sucesso. Daniel Soranz, apesar de ótimo currículo, tem inúmeras suspeitas sobre suas relações com OSS (Organização Social de Saúde).

Apesar de legalmente não haver qualquer impedimento, acho no mínimo estranho alguém que fora eleito para o mandato da vereança, cuja principal função é fiscalizar o prefeito, assumir um cargo justamente na prefeitura e esses são os casos de Laura Carneiro (Assistência Social), Jorge Felippe Neto (Trabalho e Renda), Willian Coelho (Ciência e Tecnologia) e Júnior da Lucinha (Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida). Vale muito observar suas ações diante da atuação nas secretarias.

Dei alguns destaques mais importantes com base em pesquisas e conhecimentos da política carioca, porém como fiz a ressalva acima – que sempre terá em meus textos por aqui – mostrei alguns caminhos e ideias, cabe a nós vigiar, vigiar e vigiar.

Abraços.

“A REDESS não é responsável pela opinião d@ autor/@. Defendemos a liberdade de ideias e expressão a fim de gerar análises críticas e expansão do conhecimento, sempre com respeito aos nossos valores e diretrizes e dentro da ótica legal.”

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