Uma paciente em momentos vitais

por Bernardo Monteirograduado e pós graduado em Relações Internacionais, especialista em política, atua como analista político, palestrante e professor de temas voltados ao conhecimento e divulgação política. Colunista semanal aqui da REDESS


Existem inúmeras dúvidas, ou ao menos muita inquietação no campo de estudo sobre os modelos político econômicos, se o capitalismo seria mesmo a melhor opção para a humanidade continuar a defendê-lo com tanto afinco, Ainda que seja, paira sobre o mundo – principalmente ocidental – um questionamento de fundamental importância: que tipo de capitalismo seria o melhor? Será que esse caminho que estamos trilhando, oficialmente desde o fim da Guerra Fria, em 1989 / 1991, é o melhor? Suas “promessas” e versões utilizadas chegaram a bons resultados?”

De fato meu objetivo com esse primeiro parágrafo foi somente uma provocação sem a intenção de concluir, até porque o objeto maior de meus estudos atuais e do título desse texto não está necessariamente ligado ao modelo econômico e suas variações, adotados pelo países.

Indo direto ao ponto, afinal, que paciente é essa que luta constantemente pela vida? Onde ela está e qual o seu estado atual? Bom, falamos do Brasil, ainda que não seja o país a tal paciente, mas o local onde ela está. Seu estado de saúde é grave. Estável, mas grave. Com constantes variações de piora e poucas melhoras ela se mantém sustentada pelo esforço de muitos, mesmo que outros tantos já tenham deixado de acreditar na sua recuperação – e outros, ainda que poucos, estejam de olho na sua herança. A paciente tem nome, é muito antiga e ao contrário do capitalismo dito acima, é a melhor opção que temos: a democracia.

Com quase 40 anos, a jovem democracia brasileira nunca passou por períodos de tamanha incerteza sobre seu futuro, mesmo que em outros momentos ela tenha sido apresentada de maneira disfarçada como República Velha. As garantias das liberdades civis são, provavelmente, a maior qualidade dela, seu panteão, e essas não podem ser ameaçadas nunca, de forma alguma, quando isso ocorre há um adoecimento da democracia.

O problema maior não está em momentos de dificuldades, que sempre existiram e vão existir em qualquer parte do mundo democrático, mas na herança que esta possui e no testamento em branco já assinado, pronto para ter nele escrito qualquer coisa que os interessados na sua passagem tem. Assim como as dificuldades, os interessados em sua derrota também sempre existirão, uma vez que essa não é uma condição nacional ou da combinação dos “astros” e sim desse cheque em branco que ela guarda.

Nossa paciente anda mal, sofreu e ainda sofre com inúmeras tentativas de acelerar seu processo de falência, seja para que uma irmã gêmea mais nova surja ou para ser substituída por algo pior – necessariamente será pior, uma vez que a democracia é o que temos de melhor. No caso de uma irmã gêmea mais nova, ou seja, uma “nova democracia” no Brasil, essa teria as regras do jogo político alterado, isso é certo, muito provavelmente a sua maior qualidade não será o conjunto de liberdades civis – que podem se manter, mas serão drasticamente afetadas – e podemos dizer que desde o processo eleitoral de 2018 até hoje vivemos um trailer com alguns spoilers do que poderá ser a derrota dessa democracia de menos de 40 anos no Brasil.

Precisamos encontrar e refletir sobre onde estão os nossos guardiões dos portões da democracia, como diz Levitsky em “Como as Democracias Morrem”; estariam nos partidos políticos, como nos Estados Unidos? Nas instituições, e nos sistemas de pesos e contra pesos, como achamos? Em um conjunto de ações da sociedade civil e do mercado que se unem, mesmo inconscientemente, para tal fim? Difícil apostar em uma.

Faço parte dos muitos que se esforçam e esperam que a democracia brasileira sobreviva e consiga sair mais forte, mas sou realista em saber que, mesmo uma nova democracia com requintes de necessidade do clamor popular, não será a mesma que luta pela vida diariamente.

Abraços.

“A REDESS não é responsável pela opinião d@ autor/@. Defendemos a liberdade de ideias e expressão a fim de gerar análises críticas e expansão do conhecimento, sempre com respeito aos nossos valores e diretrizes e dentro da ótica legal.”

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